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Confissão

Eu não vi os vídeos, não ouvi os áudios sobre a violência que avassalou os terreiros, casas de axé, casa de santo, casa de candomblé, umbanda, na semana passada. Não tive coragem, eu confesso. Confesso que tais atos me fizeram refletir e lembrar de quando eu namorei um evangélico e do quanto eu aprendi sobre como não ser intolerante.
Na época, eu estava iniciando minha caminhada na ayahuasca, frequentava esporadicamente, mas frequentava. E um dia ele demonstrou irritação por conta da minha escolha espiritual. Vira e mexe, ele dava um jeito de dizer que não entendia muito as escolhas espirituais da minha família: como numa casa podia ter a bíblia, livros sobre Orixá, imagem de Buda, livro cardecista, imagem de São Francisco, Kuan Yn... tudo no mesmo altar?
Nós, as Oliveiras, éramos e somos assim.
O namoro seguiu e um dia ele voltou a verbalizar o descontentamento dele por eu continuar frequentando os trabalhos com ayahuasca.
Eu respirei e disse que queria conhecer um culto da igreja dele. F…

vin'Olhar

Pausa.
Aceito a companhia de uma taça de vinho
Te recebo numa visita imaginada
O sabor antes de ser o torpor, me vasculha e te traz
E o desejo desperta.
O vinho convida o desejo para dançar, para ser
Senti-lo
Sou convidada a te sentir como um torpor que traz à consciência, a ciência dos sentidos
Te sinto sem nem sabê-lo
Não sei de suas texturas
Não sei de sua temperatura
Não sei do seu sabor
Não sei de si
De si, imagino sua textura em pelo...minha pele
De si te crio e recrio em possibilidades de encontro
Pode um corpo ter a certeza de um desejo, sem sabê-lo quando e como saciar?
Tomo o último gole e te engulo.
Sinto se'de ser com você.


fome

Vou te escreviver em desejo, enquanto espero sentir o gosto do seu beijo:

Me vejo, aqueço sempre que te penso imaginando sua voz-pelo em minha pele tateando meu corpo como quem caminha na escuridão Te crio num encontro noturno que na madrugada me adentra nesse deleitar de corpos deitados que se entrelaçam Agora te vejo, diante de mim, meus olhos te despem  minhas mãos me-te sentem minha boca aquece, ainda busco imaginar o seu gosto minhas mãos caminham e abrem os caminhos entreabro-me para sentir es'seu desejo meu tateio e entre os dedos te crio coração dispara ofegante dese'jante-me te desejar, me dá fome

Melodia

hoje eu acordei...
quantas vezes a melodia não embalou os meus sábados: eu pequenina, ouvindo aquela voz de trombone, o violão bem tocado e a voz dos que me geraram cantando, o cotidiano de uma casa simples sendo desenhando por suaves e negras melodias.
Foi assim por muitos anos... 32 anos depois, sigo esse rito afetivo: melodia na companhia cotidiana...
hoje eu acordei... bem pra lá do que pra cá
quantas vezes a conquista da independência me levou a assistir e ouvir de perto a voz-blues... eu ja não mais pequenina, cantando em coro, chorando e seguindo sua melodia como se ela pudesse me guiar até uma memória familiar...
hoje eu acordei... pérola negra
meus olhos desaguam e pensam no sonho não realizado. Nos conhecemos sem nos saber.
não questiono o tempo, os caminhos e as viagens que a nossa alma faz...
eu que fico, sigo e seguirei me guiando por sua suave e voraz melodia
me emperolando nesse mar que canta aos meus ouvidos
hoje eu acordei... em negra melodia

sintOlhar

pauso os escritos para pensá-lo
meus pensamentos buscam a sua voz,
a sua pele
a sua presença
ora o corpo traz, ora a mente traz
silencio para ser esse pensamento-teu que me atravessa
e me transversa, numa fronteira entre a espera e a imaginação
do ser e o não ser
nesse balanço do não saber o que é:
penso, logo te sinto

VentOlhar

quando a ventania gira no meu entre olhar, um mundo de sensações se abre
sinto um embalo suave, uma força que me acolhe...
movendo-me em ondas...
retorno à essas palavras
as palavras lavram os caminhos para desejo guardado
elas me aguardavam silenciosas
teço esse emaranhando de ideias que o meu corpo pulsa ao pensar-te
sim. Penso-te com o corpo inteiro